Sexta-feira, 18 de Abril de 2008

Contrastes de vivências numa gota de oceano

A compreensão do mundo, do Homem, a forma como ele “respira”, se organiza, o seu dia-a-dia, não cabe e jamais caberá num editorial, folha de um jornal ou até num canal televisivo, por mais profissionais e perfeccionistas que sejam os seus autores. A visão, o entendimento, a percepção das distintas realidades passa simplesmente por “Estar lá!”.

Eu estive lá. Apercebi-me da ainda maior complexidade de toda a Natureza, sentimentos, crenças, relações, criações Humanas.

Sinto profundamente que o rasto deixado por mim é fraquíssimo e tão ténue.
O que leva a minha mochila, máquina fotográfica, o meu “diário”, o meu pensamento, personalidade, identidade, o meu coração, a minha alma... é incomparavelmente superior.



Resta-me dizer que há cerca de oito meses atrás, parti, encaminhada pela Vida, ao encontro de uma missão em Moçambique.

Torna-se extraordinariamente difícil transcrever de forma tão sucinta, aquilo que foi vivido de forma intensa e entregue àquele dia-a-dia despido de excessos, enchido irremediavelmente por crianças e jovens em busca de um rumo, que lutam com uma força que nem eles próprios reconhecem.

Este é um “terreno” muito complexo.
Moçambique é um país com tradições extremamente bem demarcadas. Para além disto o “terreno é muito amplo”... os sorrisos e simpatia dos jovens e das crianças, dos homens e das mulheres confundem-se com as dificuldades profundas. Muitos não têm que comer, outros têm o suficiente... mas aqui em Maputo, o principal problema já não é ter o que mastigar, mas sim, ter oportunidade de trabalhar e receber com dignidade; ter o privilégio de receber valores, educação, amor (sentimentos mais profundos); ter a possibilidade de estudar numa escola em que o centro seja o aluno e não o professor...

Estou convencida de que os professores são o principal “motor” deste país, constituído essencialmente por jovens e crianças.
Aí os Salesianos têm um papel fundamental e motivador... aí o seu carisma encaixa na perfeição.
Não há políticos, nem polícias, nem médicos, advogados, nem pais, tios ou tias capazes de substituir o papel do professor.


A maioria das famílias vivem numa luta diária... muitas delas não sabem o que é ter um plano concreto de vida, porque simplesmente trabalham para comer, pagar o transporte para o trabalho, pagar os estudos dos filhos... para essas famílias não há contas poupança... vivem simplesmente para o presente.

Por outro lado, encontramos no nosso Maputo uma realidade contrária, disparamos em segundos de um oposto ao outro.
Pessoas riquíssimas, sem limites de poder... um poderio doente que se sobrepõe a muitos valores que fazem parte da natureza humana, mas que se dissipam em instantes perante aquilo que controla o mundo e o coração dos Homens, o dinheiro.

Há muito para fazer neste país, mas muito mais para aprender com estas pessoas acolhedoras, alegres e simples.

Tive o privilégio de sentir um pouco o sabor de experimentar algumas realidades distintas.

O meu trabalho incidiu essencialmente em auxiliar/assessorar na estruturação do departamento de ciências de administração do Instituto Superior Dom Bosco, também tive o privilégio de leccionar o módulo de introdução à gestão a alunos do ensino à distância, numa fase presencial, cujas idades variavam entre os 30 aos 50 anos e a duas turmas do ensino normal.

Paralelamente a isto, convivi com os miúdos do lar de S. José, as meninas da Casa Mãe Clara e as crianças do Xamanculo que recebem diariamente uma refeição das irmãs Franciscanas. Não convivi tanto quanto gostaria mas o suficiente para que fiquem comigo, sempre.

Estive 2 semanas com os jovens, naquela natureza magnífica, de Inharrime, onde os acompanhei aos oratórios nas escolinhas mais escondidas da Vila. Brincamos, conversamos, cantamos... são crianças, adolescentes com princípios bastante bem orientados.




Muitas vezes sonhava que estava no meio/envolvida por aqueles que “não têm nada”, sempre quis que essas pessoas partilhassem comigo a sensação de “não ter nada”, só tive de materializar essa vontade. Também porque me encontrava num período de vida que me “pedia” que tomasse uma atitude altruísta. Foi esta a atitude!!

Vim para Moçambique por intermédio do Padre Amadeu, do colégio dos órfãos do Porto.

Jesus recompensou-me através das pessoas que conheci, que me acolheram e que me ensinaram imenso. Isso é impagável.

Orgulho-me deste enorme fragmento do meu passado, orgulho-me ainda mais de ter a capacidade de reconhecer que a vida sem relações humanas, trocas de aprendizagens, sentimentos, sorrisos, lágrimas, ideias, cumplicidades… não tem sentido absolutamente nenhum.

Sinto-me uma afortunada por saber que nunca mais voltarei a ser a mesma.

Um obrigada repleto de carinho a todos os Salesianos que me acolheram e me aceitaram como a Raquel.

“Estamos juntos…”


>>>  por Sara Raquel

Texto publicado em MJS - Voluntariado

sinto-me:
publicado por FAA às 01:59
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